vagamente
denominado de sua poesia com o que constitui a beleza de um filme: uma
sucessão de imagens naturais, verdadeiras. Chekhov sempre procurou aquilo que
é natural; queria que as execuções e as produções fossem tão límpidas
quanto a própria vida. Assim, para poder capturar sua atmosfera peculiar,
deve-se resistir à tentação de impor um estilo "literário" a
frases que, em russo, são pura simplicidade. O estilo de Chekhov é
extremamente concentrado, empregando um mínimo de palavras; de certa forma, é
similar ao de Pinter ou de Beckett. Conforme acontece com estes últimos, é a
construção que conta, o ritmo, a pura poesia teatral que não emana de belas
palavras mas de palavras certas no momento adequado. No teatro, alguém pode
dizer "sim" de tal forma que o "sim" não seja mais
ordinário – pode se transformar numa palavra bonita, por ser a expressão
perfeita daquilo que não pode ser dito de qualquer outra forma.
Na medida em que nos decidimos pela fidelidade, queríamos que o
texto em francês se adaptasse perfeitamente ao russo, sendo exatamente tão
forte e realístico que o original. O risco que corríamos era o de cair em
coloquialismos artificiais. Equivalentes são possíveis na literatura escrita;
a língua falada, porém, não é exportável. Jean-Claude Carrière lançou
mão de um vocabulário simples, procurando fornecer aos atores, a cada frase, o
movimento do pensamento concebido por Chekhov, respeitando o detalhe da
marcação de tempo indicada pela pontuação. Shakespeare não utilizou
pontuação; esta foi introduzida posteriormente. Suas peças são como
telegramas: os próprios atores têm que compor os grupos de palavras. Já em
Chekhov, pontos, vírgulas e pontos de suspensão adquirem todos importância
fundamental, tanto quanto as "pausas" indicadas com precisão por
Beckett. Caso não sejam observadas, perde-se o ritmo e as tensões da peça. Na
obra de Chekhov, a pontuação representa uma série de mensagens codificadas
que registram as emoções e relações dos personagens, os momentos em que as
idéias se juntam ou seguem seu próprio curso. A pontuação nos possibilita
perceber aquilo que as palavras ocultam.
Chekhov é um cineasta consumado. Ao invés de cortar de uma
imagem para outra – e talvez de um lugar para outro –, ele pula de uma
emoção para outra, imediatamente antes que esta se torne pesada demais. No
instante exato em que o espectador corre o risco de ficar demasiadamente
envolvido com um personagem, surge uma situação inesperada: nada permanece
estável. Chekhov retrata indivíduos e sociedade num estado de mudança
perpétua, tornando-se assim o dramaturgo do movimento da vida, simultaneamente
sorridente e sério, divertido e amargo – absolutamente desligado da
"música", da "nostalgia" eslava que os clubes noturnos de
Paris ainda preservam. Freqiientemente, afirmou que suas peças eram comédias
– esse era o ponto central de seu conflito com Stanis-lavsky. Ele odiava o tom
dramático e a lentidão plúmbea que o diretor impunha.
Contudo, seria um engano concluir que The Cherry Orchard deva
ser encenado como um vaudeville. Chekhov é um observador infinitamente
minucioso da comédia humana. Enquanto médico, conhecia o significado de
determinados tipos de comportamento, sabia discernir aquilo que era essencial e
expor o que diagnosticava. A despeito de demonstrar ternura e simpatia
atenciosa, jamais sentimentaliza. Não é possível imaginar um médico derramar
lágrimas sobre as enfermidades de seus pacientes. Ele aprendeu a equilibrar
compaixão com distanciamento.
A morte é onipresente – conforme ele bem o sabia – na obra
de Chekhov, mas não há nada de negativo ou detestável em sua presença. A
consciência da morte é contrabalanceada por um desejo de viver. Seus
personagens possuem a noção do momento presente e demonstram ter a necessidade
de gozá-lo plenamente. Conforme ocorre em grandes tragédias, encontra-se certa
harmonia entre a vida e a morte.
Chekhov faleceu jovem, tendo viajado, escrito e amado
enormemente, e tendo participado dos acontecimentos de seu tempo de grandes
projetos de reforma social. Morreu pouco depois de ter pedido champagne, e seu
ataúde foi transportado num vagão que ostentava a inscrição "Ostras
Frescas". A consciência que demonstrava ter a respeito da morte e dos
preciosos momentos que podiam ser vividos dota sua obra de um sentido de
relatividade; em outras palavras, trata-se de um ponto de vista a partir do qual
o trágico é sempre um pouco absurdo.
Na obra de Chekhov, cada personagem possui uma existência
própria; nenhum deles se assemelha a outro, fato particularmente verdadeiro em The
Cherry Orchard, que apresenta um microcosmo das tendências políticas
vigentes na época. Há os que acreditam em transformações sociais, e outros
que se agarram a um passado em extinção. Nenhum deles logra alcançar
satisfação ou plenitude e, vistas de fora, suas existências bem podem parecer
vazias, sem sentido. Não obstante, todos ardem com intensos desejos. Não
estão desiludidos, muito pelo contrário: a seu modo, todos buscam melhor
qualidade de vida, tanto a nível social como emocional-mente. Seu drama é que
a sociedade – o mundo externo – bloqueia suas energias. A complexidade de
seu comportamento não está indicada por palavras, mas emerge da construção
de um mosaico constituído de um número infinito de detalhes. É essencial
compreender que não se trata de peças que giram em torno de pessoas
letárgicas. São pessoas hipervivazes situadas num mundo letárgico, forçadas
a dramatizar os mínimos acontecimentos em função de um apaixonado desejo de
viver. Não desistiram.