Referências


Peter Brook

Existem quatro versões de The Cherry Orchard (O Jardim das Cerejeiras) em francês, e um número ainda maior em inglesa. Ainda assim, teremos que tentar novamente. É necessário reavaliar regularmente as adaptações existentes, pois sempre adotam o colorido da época em que foram escritas, exatamente do mesmo modo que as produções, que nunca são definitivas.

Houve um tempo em que se costumava acreditar que um texto precisava ser recriado livremente por um poeta para que se pudesse captar sua atmosfera. Presentemente, a fidelidade é que se trans-formou na preocupação central: uma abordagem que necessita a ponderação de cada uma das palavras para trazê-las à focalização exata. Esse processo é especialmente interessante em Chekhov, uma vez que sua qualidade essencial é a precisão. Gostaria de comparar aquilo que é vagamente denominado de sua poesia com o que constitui a beleza de um filme: uma sucessão de imagens naturais, verdadeiras. Chekhov sempre procurou aquilo que é natural; queria que as execuções e as produções fossem tão límpidas quanto a própria vida. Assim, para poder capturar sua atmosfera peculiar, deve-se resistir à tentação de impor um estilo "literário" a frases que, em russo, são pura simplicidade. O estilo de Chekhov é extremamente concentrado, empregando um mínimo de palavras; de certa forma, é similar ao de Pinter ou de Beckett. Conforme acontece com estes últimos, é a construção que conta, o ritmo, a pura poesia teatral que não emana de belas palavras mas de palavras certas no momento adequado. No teatro, alguém pode dizer "sim" de tal forma que o "sim" não seja mais ordinário – pode se transformar numa palavra bonita, por ser a expressão perfeita daquilo que não pode ser dito de qualquer outra forma.

Na medida em que nos decidimos pela fidelidade, queríamos que o texto em francês se adaptasse perfeitamente ao russo, sendo exatamente tão forte e realístico que o original. O risco que corríamos era o de cair em coloquialismos artificiais. Equivalentes são possíveis na literatura escrita; a língua falada, porém, não é exportável. Jean-Claude Carrière lançou mão de um vocabulário simples, procurando fornecer aos atores, a cada frase, o movimento do pensamento concebido por Chekhov, respeitando o detalhe da marcação de tempo indicada pela pontuação. Shakespeare não utilizou pontuação; esta foi introduzida posteriormente. Suas peças são como telegramas: os próprios atores têm que compor os grupos de palavras. Já em Chekhov, pontos, vírgulas e pontos de suspensão adquirem todos importância fundamental, tanto quanto as "pausas" indicadas com precisão por Beckett. Caso não sejam observadas, perde-se o ritmo e as tensões da peça. Na obra de Chekhov, a pontuação representa uma série de mensagens codificadas que registram as emoções e relações dos personagens, os momentos em que as idéias se juntam ou seguem seu próprio curso. A pontuação nos possibilita perceber aquilo que as palavras ocultam.

Chekhov é um cineasta consumado. Ao invés de cortar de uma imagem para outra – e talvez de um lugar para outro –, ele pula de uma emoção para outra, imediatamente antes que esta se torne pesada demais. No instante exato em que o espectador corre o risco de ficar demasiadamente envolvido com um personagem, surge uma situação inesperada: nada permanece estável. Chekhov retrata indivíduos e sociedade num estado de mudança perpétua, tornando-se assim o dramaturgo do movimento da vida, simultaneamente sorridente e sério, divertido e amargo – absolutamente desligado da "música", da "nostalgia" eslava que os clubes noturnos de Paris ainda preservam. Freqiientemente, afirmou que suas peças eram comédias – esse era o ponto central de seu conflito com Stanis-lavsky. Ele odiava o tom dramático e a lentidão plúmbea que o diretor impunha.

Contudo, seria um engano concluir que The Cherry Orchard deva ser encenado como um vaudeville. Chekhov é um observador infinitamente minucioso da comédia humana. Enquanto médico, conhecia o significado de determinados tipos de comportamento, sabia discernir aquilo que era essencial e expor o que diagnosticava. A despeito de demonstrar ternura e simpatia atenciosa, jamais sentimentaliza. Não é possível imaginar um médico derramar lágrimas sobre as enfermidades de seus pacientes. Ele aprendeu a equilibrar compaixão com distanciamento.

A morte é onipresente – conforme ele bem o sabia – na obra de Chekhov, mas não há nada de negativo ou detestável em sua presença. A consciência da morte é contrabalanceada por um desejo de viver. Seus personagens possuem a noção do momento presente e demonstram ter a necessidade de gozá-lo plenamente. Conforme ocorre em grandes tragédias, encontra-se certa harmonia entre a vida e a morte.

Chekhov faleceu jovem, tendo viajado, escrito e amado enormemente, e tendo participado dos acontecimentos de seu tempo de grandes projetos de reforma social. Morreu pouco depois de ter pedido champagne, e seu ataúde foi transportado num vagão que ostentava a inscrição "Ostras Frescas". A consciência que demonstrava ter a respeito da morte e dos preciosos momentos que podiam ser vividos dota sua obra de um sentido de relatividade; em outras palavras, trata-se de um ponto de vista a partir do qual o trágico é sempre um pouco absurdo.

Na obra de Chekhov, cada personagem possui uma existência própria; nenhum deles se assemelha a outro, fato particularmente verdadeiro em The Cherry Orchard, que apresenta um microcosmo das tendências políticas vigentes na época. Há os que acreditam em transformações sociais, e outros que se agarram a um passado em extinção. Nenhum deles logra alcançar satisfação ou plenitude e, vistas de fora, suas existências bem podem parecer vazias, sem sentido. Não obstante, todos ardem com intensos desejos. Não estão desiludidos, muito pelo contrário: a seu modo, todos buscam melhor qualidade de vida, tanto a nível social como emocional-mente. Seu drama é que a sociedade – o mundo externo – bloqueia suas energias. A complexidade de seu comportamento não está indicada por palavras, mas emerge da construção de um mosaico constituído de um número infinito de detalhes. É essencial compreender que não se trata de peças que giram em torno de pessoas letárgicas. São pessoas hipervivazes situadas num mundo letárgico, forçadas a dramatizar os mínimos acontecimentos em função de um apaixonado desejo de viver. Não desistiram.