A única pessoa que vislumbra
uma solução é Lopaquine, proprietário de terras que enriqueceu com o
próprio trabalho. Filho de antigos escravos da família, Lopaquine tenta
ajudar, mas vê seu espírito realizador em conflito com o ócio militante da
aristocrática família.
A trama, como é
habitual nos textos de Tchecov, envolve diversos outros personagens e
situações que circulam ao redor dessa trama básica. Há Vária, a filha
adotada da família que tem uma noção mais clara da situação, mas também
não sabe como agir, apenas aguardando passivamente e ironizando a possibilidade
de tornar-se noiva do rico Lopaquine. Há Pétia, o estudante revolucionário
que praticamente se entusiasma diante daquela derracado dos aristocratas, que
ele enxerga como uma transformação social.
Há Duniacha, a empregada que sonha em ter a
elegância de uma aristocrata, e apaixona-se por Iacha, o serviçal que volta de
Paris com Liuba agindo como um nobre, sendo hostilizado por Epikodov, outro
empregado que persegue a aceitação dos outros e o amor de Duniacha.
Ainda entre os serviçais há a poderosa
figura de Firs, um mordomo quase tão antigo quanto a casa, e que anda pelo
lugar balbuciando a saudade de um tempo de glórias que acabou.
Completam o rico elenco de tipos humanos
Pitchique, o proprietário de terras vizinhas, que também está em dificuldades
financeiras e Carlota, uma espécie de governanta que se o Jardim for vendido
não terá para onde ir, mas parece não se importar pois segundo diz "nem
sabe de onde vem, apenas que seus pais eram do circo" e sempre viveu por
aí. Assim, parece pensar também um estranho viajante que surge no meio da
peça e parte logo depois mudando o rumo da trama à maneira sutil de Tchecov.
Um último personagem simboliza bem a sutileza
do autor, é Ânia, filha de Liuba e o mais jovem membro da família. De
formação aristocrática como a mãe e o tio, é ela talvez quem mais
compreenda que algo precisa mudar, e ao longo da história vai aceitando e se
adaptando aos novos tempos, compreendo sua inevitabilidade.
O autor criou um rico painel de sentimentos e
personagens humanos em meio a uma radical transformação social e cultural, que
longe de representar uma época ou um país, evoca a relação do homem com a
mudança e todo o drama que emana dessa situação ancestral.
A grandiosidade dessa criação é certamente
de difícil resumo, pois o que há de mais marcante é o fluxo da relação de
todos os personagens e de seus profundos movimentos interiores. Pois o que se
ouve é só uma parcela do que se passa dentro de cada um, e que milagrosamente
Tchecov parece ter registrado e o espectador pode experimentar.