SINOPSE


A trama de "O Jardim das Cerejeiras" é centrada em uma família de aristocratas vivendo na Rússia do início do século vinte.

A família está praticamente falida e na eminência de perder sua imensa propriedade, um extraordinário cerejal conhecido em toda a região como "Jardim das Cerejeiras" , que irá a leilão. É ali que eles vivem há várias gerações na mansão construída pelos antepassados.

A dona das terras, Liuba Andreievna, retorna de Paris - após cinco anos longe da Rússia - para encontrar uma maneira de impedir o leilão. Porém, a formação que um aristocrata recebia não ensinou a Liuba, ou a seu irmão Gáiev, como lidar com problemas e dificuldades financeiras de qualquer espécie, fazendo com que sua atitude perante a situação se limite a um jogo que vai da passividade ao pânico, sem qualquer ação concreta.

A única pessoa que vislumbra uma solução é Lopaquine, proprietário de terras que enriqueceu com o próprio trabalho. Filho de antigos escravos da família, Lopaquine tenta ajudar, mas vê seu espírito realizador em conflito com o ócio militante da aristocrática família.

A trama, como é habitual nos textos de Tchecov, envolve diversos outros personagens e situações que circulam ao redor dessa trama básica. Há Vária, a filha adotada da família que tem uma noção mais clara da situação, mas também não sabe como agir, apenas aguardando passivamente e ironizando a possibilidade de tornar-se noiva do rico Lopaquine. Há Pétia, o estudante revolucionário que praticamente se entusiasma diante daquela derracado dos aristocratas, que ele enxerga como uma transformação social.

Há Duniacha, a empregada que sonha em ter a elegância de uma aristocrata, e apaixona-se por Iacha, o serviçal que volta de Paris com Liuba agindo como um nobre, sendo hostilizado por Epikodov, outro empregado que persegue a aceitação dos outros e o amor de Duniacha.

Ainda entre os serviçais há a poderosa figura de Firs, um mordomo quase tão antigo quanto a casa, e que anda pelo lugar balbuciando a saudade de um tempo de glórias que acabou.

Completam o rico elenco de tipos humanos Pitchique, o proprietário de terras vizinhas, que também está em dificuldades financeiras e Carlota, uma espécie de governanta que se o Jardim for vendido não terá para onde ir, mas parece não se importar pois segundo diz "nem sabe de onde vem, apenas que seus pais eram do circo" e sempre viveu por aí. Assim, parece pensar também um estranho viajante que surge no meio da peça e parte logo depois mudando o rumo da trama à maneira sutil de Tchecov.

Um último personagem simboliza bem a sutileza do autor, é Ânia, filha de Liuba e o mais jovem membro da família. De formação aristocrática como a mãe e o tio, é ela talvez quem mais compreenda que algo precisa mudar, e ao longo da história vai aceitando e se adaptando aos novos tempos, compreendo sua inevitabilidade.

O autor criou um rico painel de sentimentos e personagens humanos em meio a uma radical transformação social e cultural, que longe de representar uma época ou um país, evoca a relação do homem com a mudança e todo o drama que emana dessa situação ancestral.

A grandiosidade dessa criação é certamente de difícil resumo, pois o que há de mais marcante é o fluxo da relação de todos os personagens e de seus profundos movimentos interiores. Pois o que se ouve é só uma parcela do que se passa dentro de cada um, e que milagrosamente Tchecov parece ter registrado e o espectador pode experimentar.

Essa foi a última peça desse grande dramaturgo russo - provavelmente o maior deles - e não são poucos os que a consideraram como um testamento.