"A Importância de ser Prudente"
de Oscar Wilde
Cena: Primeiro Ato
Personagens: John Worthing e Gwendolen Fairfax
(lady Bracknell e Algernon vão para sala de música, deixando Gwendolen e John sozinhos)
John - Lindo dia o de hoje, não acha, miss Fairfax?
Gwendolen - Por favor, não me fale do tempo. Quem fala do tempo dá sempre idéia de estar pensando em outra coisa.
John - Estou mesmo.
Gwendolen - É o que eu pensava. Nunca me engano.
John - E gostaria de poder aproveitar-me da ausência temporária de lady Bracknell...
Gwendolen - E eu também... Mamãe tem a especialidade de sair e voltar de repente quando menos se espera. Estou farta de reclamar.
John (nervosamente ) - Miss Fairfax, desde que a vi pela primeira vez, tive a impressão... de que era a primeira vez que a via... desde que a vi...
Gwendolen - Sei... Percebi. Mas queria que os outros também percebessem. O senhor para mim foi sempre uma tentação. Mesmo antes de conhecer o senhor pessoalmente, o senhor já não era para mim um indiferente. (John fita-a com espanto) Como o senhor sabe, vivemos numa época de ideais. É o que se lê constantemente nas revistas caras, e soube que até já houve menção em pregações provincianas. E o meu ideal foi sempre amar um homem que se chamasse Prudente. Este nome tem qualquer coisa que inspira absoluta confiança. Quando, pela primeira vez, Algernon me disse que tinha um amigo chamado Prudente, senti que o meu destino era amá-lo.
John - E gosta de mim de verdade, Gwendolen?
Gwendolen - Apaixonadamente.
John - Querida! Não sabe a felicidade que me dá!
Gwendolen - Prudente, "meu" Prudente!
John - Sérá que você deixaria de gostar de mim se eu não me chamasse Prudente?
Gwendolen - Mas você se chama Prudente.
John - Sim, eu sei. Mas, se eu não me chamasse assim? Será que não poderia gostar de mim?
Gwendolen (voluvelmente) - Ah! Isso é, nitidamente, especulação metafísica; e como a maior parte das especulações metafísicas, muito pouca relação tem com os fatos da vida real, tais como nós os conhecemos.
John - Pessoalmente, minha querida, para lhe falar com toda franqueza, não ligo muita importância ao nome de Prudente... Não acho que esse nome combine comigo.
Gwendolen - Combina perfeitamente. É um nome divino. Tem música própria. Causa até arrepios.
John - Realmente, Gwendolen. Acho, porém, que há uma infinidade de outros nomes muito mais bonitos. Por exemplo: John é um nome encantador.
Gwendolen - John?... É horrível! Tão pouco musical! Completamente inofensivo! Não causa arrepios de maneira alguma... Conheci vários Johns e todos eles, sem exceção alguma, eram de uma prodigiosa banalidade. O nome John e de uma absoluta familiaridade. Tenho pena das mulheres casadas com Johns. Nunca elas poderiam gozar o inefável prazer de um momento de solidão. O único nome garantido de verdade é Prudente.
John - Gwendolen, tenho que me batizar incontinenti... quero dizer, temos que casar incontinenti, não há tempo a perder.
Gwendolen - Casr, sr. Worthing?
John (espantado) - Ora essa! É claro! Sabe que eu gosto da senhora, e deu-me a entender, miss Fairfax, que a senhora de certo modo me retribuía.
Gwendolen - Eu o adoro! Mas ainda não me pediu em casamento.
John - Bem... posso fazer o pedido agora?
Gwendolen - Acho que esta seria uma admirável oportunidade. E para lhe poupar qualquer possível decepção, sr. Worthing, acho de meu dever dizer-lhe desde já, com toda a franqueza, que estou plenamente resolvida a ceder-lhe a minha mão.
John - Gwendolen!
Gwendolen - Então, sr. Worthing, que diz a isso?
John - Bem sabe o que eu quero dizer.
Gwendolen - Sim, mas não diz.
John - Gwendolen, quer casar comigo? (ajoelha)
Gwendolen - É claro, meu querido! Mas como você custou para dizer isso! Parece ter muito pouca prática nesse gênero de declarações.
John - Ouça, meu amor! Nunca, neste mundo, gostei de mais ninguém senão de você.
Gwendolen - É... Mas muitas vezes os homens fazem propostas de casamento apenas para adquirir prática. Meu irmão Gerald, por exemplo, é desses, pelo que me dizem todas as minhas amigas. Como são lindos seus olhos, Prundente. Azuis, tão perfeitamente azuis! Espero que há de olhar sempre para mim como está olhando agora, principalmente quando houver gente perto.
(entra lady Bracknell)