"A Megera Domada"
de William Shakespeare
1o. cena - (Encontro de Petrúquio e Catarina)
Petrúquio (ele já está na sala quando Catarina entra) - Bom dia Cata, pois ouvi dizer que assim a chamam.
Catarina - Pois ouviu muito bem para quem é meio surdo: os que podem me chamar me chamam Catarina.
Petrúquio - Tu mentes, Catarina; pois te chamas simplesmente Cata. Cata, a formosa e, algumas vezes, a megera Cata. Mas Cata, a mais bela Cata de toda a cristandade. Cata, esse catavento, minha recatada Cata, a quem tantos catam, ah, portanto, por isso, Cata, meu consolo, ouvindo cantar tua meiguice em todas as cidades, falar de tuas virtudes, louvar tua beleza, me senti movido a vir aqui pedir-te em casamento.
Catarina - Movido, em boa hora! Pois quem o moveu daqui que daqui o remova. Assim que o vi percebi imediatamente que se tratava de um móvel.
Petrúquio - Como, um móvel?
Catarina - Um móvel. Um banco.
Petrúquio - Você percebeu bem; pois vem e senta em mim.
Catarina - Os burros foram feitos para a carga, como você.
Petrúquio - Para carregar-nos muito antes de nascer foram feitas as mulheres.
Catarina - Mas não a animais, quer que parecer.
Petrúquio - Ai, Cata gentil! Não pesarei quando estiver em cima de ti... pois és tão jovem e tão leve...
Catarina - Leve demais para ser carregada por um grosseirão como você e, no entanto, pesada, por ter de ouvi-lo e vê-lo.
Petrúquio - Não maltrate aquele que a corteja.
Catarina - Corteja ou corveja?
Petrúquio - Oh, pombinha delicada, um corvo te agradaria?
Catarina - É melhor que um abutre!
Petrúquio - Vejo-a agora irritada demais; a pombinha virou vespa.
Catarina - Se virei, cuidado com o meu ferrão.
Petrúquio - Só me resta um remédio - arrancá-lo.
Catarina - Sim, se o imbecil soubesse onde ele é.
Petrúquio - Mas quem não sabe onde é o ferrão da vespa? No rabo.
Catarina - Na língua.
Petrúquio - De quem?
Catarina - Na sua, que fala de maneira grosseira! E agora, adeus!
Petrúquio - Assim, com a minha língua no rabo? Não, volta aqui, boa Cata: eu sou um cavalheiro.
Catarina - Vou verificar. (esbofeteia-o)
Petrúquio - Volte a fazê-lo e juro que a estraçalho.
Catarina - Com que armas? As de cavalheiro? Se me bater não será cavalheiro e, não sendo cavalheiro, não terás armas.
Petrúquio - Ah, entendes de heráldica? Põe-me então no teu brasão, que estou em brasas.
Catarina - Qual é o seu emblema? Uma crista de galo?
Petrúquio - Um galinho sem crista, se queres ser minha franga.
Catarina - Galo sem crista não é galo pra mim.
Petrúquio - Vamos, Cata, vamos: não sejas tão azeda.
Catarina - É como eu fico, quando vejo um rato.
Petrúquio - Não há ratos aqui; portanto não se azede.
Catarina - Há sim, há sim.
Petrúquio - Mostre-me então.
Catarina - Se eu tivesse um espelho mostraria.
Petrúquio - Como: O rato então sou eu?
Catarina - Que perspicácia em rapaz tão jovem.
Petrúquio - Jovem mesmo, por São Jorge. Sobretudo em relação a você.
Catarina - E, no entanto, todo encarquilhado.
Petrúquio - São as penas do amor.
Catarina - Não me dê pena.
Petrúquio - Mas, ouve aqui, Cata; juro que não me escapas assim.
Catarina - Se eu ficar é só para irritá-lo. Largue-me!
Petrúquio - E, agora, pondo de lado tudo o que dissemos, vou falar claro: teu pai já consentiu em que case comigo. Já concordamos com respeito ao dote. E queira ou não queiras, vou me casar contigo. Olha, Cata, sou o marido que te convém: sou aquele que nasceu para domar-te e transformar a Cata selvagem numa gata mansa.
Catarina - Vai domar os teus criados, imbecil! (Sai)