ALBÚM DE FAMÍLIA
NELSON RODRIGUES

II ATO
Cena de Glorinha e Guilherme

( Interior da igrejinha local. Altar todo enfeitado. Retrato imenso de Nosso Senhor, inteiramente desproporcionado - que vai do teto ao chão. Nota importante: em vez do rosto do Senhor, o que se vê é o rosto cruel e bestial de Jonas. É evidente que o quadro, assim grande, corresponde às condições psicológicas de Glória, que vem entrando com Guilherme. Primeira providência de Glória: olhar para a falsa fisionomia de Jesus. Caiu um tempestade. Glória está ensopada e Guilherme também.) (Glória é uma adolescente linda.)


GLÓRIA (Com surpresa e certo medo) - “Que dê” papai? Você não disse que ele estava esperando – aqui?
GUILHERME – Vem já! Não demora!

(Glória está diante do quadro, deslumbrada. Ajoelha-se e reza. Durante a reza, Guilherme, com a mão, esboça uma carícia sobre a cabeça da irmã, mas desiste em tempo. )

GUILHERME – Você custou!

GLÓRIA – ( com frio, sem ligar à observação) – Com quem é que se parece ELE?

GUILHERME (pertubado) - Precisa tirar essa roupa – olha como está! Senão se resfria!

GLÓRIA – Igualzinho!

GUILHERME – No ano passado, por causa de uma chuva dessas, morreu aquela menina de pneumonia... (mudando de tom) Olha – tem um lugar aqui! Aqui detrás!

(Guilherme está ao lado do altar. )

GLÓRIA – (sempre impressionada com o falso Cristo) – Nunca vi uma coisa assim! Que semelhança! ( continua com frio, os braços cruzados sobre o peito)

GUILHERME (chamando-a com angústia) – Vem, anda! Aqui detrás do altar – é oco! Você tira a roupa, deixa enxugar – depois veste!

GLÓRIA ( só então compreendendo o que deseja o irmão) – Aí? (Com um arrepio) Mas pode entrar gente!

GUILHERME – Que o quê! Com esse tempo!

GLÓRIA – Mas demora muito a enxugar!

GUILHERME (agitado) - O que você não pode é ficar assim - molhada – VOCÊ VAI-ME DANDO A ROUPA, EU TORÇO. NUM INSTANTE SECA!

GLÓRIA (entrando no oco do altar) – Estou com uns arrepios!

GUILHERME – No mínimo, resfriou-se.

GLÓRIA – E papai que não chega!

GUILHERME – Daqui a pouco está aí!

GLÓRIA – Essa igrejinha me faz lembrar tanta coisa!

GUILHERME – Glória, você precisa saber de CERTAS COISAS...

GLÓRIA (sem ouví-lo) - Mas você não nota nada – NADA?

GUILHERME – O quê?

GLÓRIA – Olha bem para esse quadro... Não nota nada – não acha parecido?

GUILHERME – Como parecido?

GLÓRIA – Não é o mesmo rosto de papai, a mesma expressão, DIREITINHO?

GUILHERME (depois de uma pausa) – Vai passando a roupa para eu torcer.

(Vê-se que Guilherme está possuído de uma grande agitação.)

GLÓRIA – Não precisa!

GUILHERME – Por quê? Ë uma coisa – TÃO NATURAL!

GLÓRIA – Deixa – Eu mesma torço!

GUILHERME – Então, está bem... (baixando a voz) Mas não tinha nada demais. Eu não sou como ELES.

GLÓRIA – Não ouvi direito. Que foi?

GUILHERME (voz baixa, para que Glória não possa ouví-lo) – Se ELES vissem o seu braço, de fora, só o braço – NU - estendendo uma peça de roupa – iam-se impressionar. Sobretudo o pai!

GLÓRIA – Fale mais alto!

GUILHERME (ainda baixo) – Mas eu sou diferente. (elevando a voz) Glória, eu posso estar aqui – sozinho com você. Mesmo que eu fosse o único homem e você a única mulher no mundo.

GLÓRIA – Que é que há, Guilherme?

GUILHERME (doloroso) – Sofri um ACIDENTE.

GLÓRIA – Você sabe que eu estou notando uma diferença em você?

GUILHERME – Estou mais gordo... Me arredondando... (olha com asco as próprias mãos) Suo tanto nas mãos!

(Glória sai do oco do altar. Com o vestido todo amarrotado.)

GUILHERME (com despeito) - Mas você não enxugou nada!

GLÓRIA – O vestido!

GUILHERME (angustiado) – Mas só?... Vocë devia enxugar tudo... Tirar e enxugar direito... Assim, vai-se resfriar, no mínimo!

GLÓRIA – E papai?

GUILHERME - Como foi AQUILO? ... Com aquela menina ?

GLÓRIA (dolorosa) – Com Teresa?

GUILHERME – Por que é que você fez... AQUILO?

GLÓRIA (com angústia) – Eu não fiz nada!

GUILHERME (suplicante) – Me conta... TUDO! Não quero que você tenha vergonha de mim – NENHUMA.

(Segura as duas mãos de Glória. Parece um sátiro.)

GUILHERME – Olha meu coração – como bate!

GLÓRIA – Para que falar nisso?

GUILHERME (fremente de cólera) – Conta!

GLÓRIA (chorando) – Se você soubesse, a força que eu tenho feito para não pensar NISSO! (com veemência) Eu
tenho certeza, absoluta, que ela vai-se matar!

GUILHERME (baixando a voz) Me diz – vocês faziam aquilo – INOCENTEMENTE?

GLÓRIA (como se falasse consigo mesma) – Ela me pediu por tudo para nós morrermos juntas. Queria que eu me atirasse com ela entre um vagão e outro. (doce e transportada) Depois o trem passava por cima da gente...

GUILHERME (espantado) – Deus não quer isso!

GLÓRIA (como que falando para si mesma) – Ficou sentida – tão sentida – porque eu contei que...

GUILHERME (desesperado) Contou o quê?

GLÓRIA - ... que toda vez que a gente se beijava, eu fechava os olhos e via direitinho a fisionomia de papai. Mas direitinho como está ali.

(Indica o falso quadro de Jesus.)

<FIM DA CENA>