II ATO
Cena de Glorinha e Guilherme
( Interior da igrejinha local. Altar todo enfeitado. Retrato imenso de Nosso Senhor, inteiramente desproporcionado - que vai do teto ao chão. Nota importante: em vez do rosto do Senhor, o que se vê é o rosto cruel e bestial de Jonas. É evidente que o quadro, assim grande, corresponde às condições psicológicas de Glória, que vem entrando com Guilherme. Primeira providência de Glória: olhar para a falsa fisionomia de Jesus. Caiu um tempestade. Glória está ensopada e Guilherme também.) (Glória é uma adolescente linda.)
GLÓRIA (Com surpresa e certo medo) - “Que dê” papai?
Você não disse que ele estava esperando – aqui?
GUILHERME – Vem já! Não demora!
(Glória está diante do quadro, deslumbrada. Ajoelha-se e reza. Durante a reza, Guilherme, com a mão, esboça uma carícia sobre a cabeça da irmã, mas desiste em tempo. )
GUILHERME – Você custou!
GLÓRIA – ( com frio, sem ligar à observação)
– Com quem é que se parece ELE?
GUILHERME (pertubado) - Precisa tirar essa roupa – olha como está!
Senão se resfria!
GLÓRIA – Igualzinho!
GUILHERME – No ano passado, por causa de uma chuva dessas, morreu aquela
menina de pneumonia... (mudando de tom) Olha – tem um lugar aqui! Aqui
detrás!
(Guilherme está ao lado do altar. )
GLÓRIA – (sempre impressionada com o falso Cristo)
– Nunca vi uma coisa assim! Que semelhança! ( continua com frio,
os braços cruzados sobre o peito)
GUILHERME (chamando-a com angústia) – Vem, anda! Aqui detrás
do altar – é oco! Você tira a roupa, deixa enxugar –
depois veste!
GLÓRIA ( só então compreendendo o que deseja o irmão)
– Aí? (Com um arrepio) Mas pode entrar gente!
GUILHERME – Que o quê! Com esse tempo!
GLÓRIA – Mas demora muito a enxugar!
GUILHERME (agitado) - O que você não pode é ficar assim
- molhada – VOCÊ VAI-ME DANDO A ROUPA, EU TORÇO. NUM INSTANTE
SECA!
GLÓRIA (entrando no oco do altar) – Estou com uns arrepios!
GUILHERME – No mínimo, resfriou-se.
GLÓRIA – E papai que não chega!
GUILHERME – Daqui a pouco está aí!
GLÓRIA – Essa igrejinha me faz lembrar tanta coisa!
GUILHERME – Glória, você precisa saber de CERTAS COISAS...
GLÓRIA (sem ouví-lo) - Mas você não nota nada –
NADA?
GUILHERME – O quê?
GLÓRIA – Olha bem para esse quadro... Não nota nada –
não acha parecido?
GUILHERME – Como parecido?
GLÓRIA – Não é o mesmo rosto de papai, a mesma expressão,
DIREITINHO?
GUILHERME (depois de uma pausa) – Vai passando a roupa para eu torcer.
(Vê-se que Guilherme está possuído de uma grande agitação.)
GLÓRIA – Não precisa!
GUILHERME – Por quê? Ë uma coisa – TÃO NATURAL!
GLÓRIA – Deixa – Eu mesma torço!
GUILHERME – Então, está bem... (baixando a voz) Mas não
tinha nada demais. Eu não sou como ELES.
GLÓRIA – Não ouvi direito. Que foi?
GUILHERME (voz baixa, para que Glória não possa ouví-lo)
– Se ELES vissem o seu braço, de fora, só o braço
– NU - estendendo uma peça de roupa – iam-se impressionar.
Sobretudo o pai!
GLÓRIA – Fale mais alto!
(Glória sai do oco do altar. Com o vestido todo amarrotado.)
GUILHERME (com
despeito) - Mas você não enxugou nada!
GLÓRIA – O vestido!
GUILHERME (angustiado) – Mas só?... Vocë devia enxugar tudo...
Tirar e enxugar direito... Assim, vai-se resfriar, no mínimo!
GLÓRIA – E papai?
GUILHERME - Como foi AQUILO? ... Com aquela menina ?
GLÓRIA (dolorosa) – Com Teresa?
GUILHERME – Por que é que você fez... AQUILO?
GLÓRIA (com angústia) – Eu não fiz nada!
GUILHERME (suplicante) – Me conta... TUDO! Não quero que você
tenha vergonha de mim – NENHUMA.
(Segura as duas mãos de Glória. Parece um sátiro.)
GUILHERME –
Olha meu coração – como bate!
GLÓRIA – Para que falar nisso?
GUILHERME (fremente de cólera) – Conta!
GLÓRIA (chorando) – Se você soubesse, a força que
eu tenho feito para não pensar NISSO! (com veemência) Eu
tenho certeza, absoluta, que ela vai-se matar!
GUILHERME (baixando a voz) Me diz – vocês faziam aquilo –
INOCENTEMENTE?
GLÓRIA (como se falasse consigo mesma) – Ela me pediu por tudo
para nós morrermos juntas. Queria que eu me atirasse com ela entre um
vagão e outro. (doce e transportada) Depois o trem passava por cima da
gente...
GUILHERME (espantado) – Deus não quer isso!
GLÓRIA (como que falando para si mesma) – Ficou sentida –
tão sentida – porque eu contei que...
GUILHERME (desesperado) Contou o quê?
GLÓRIA - ... que toda vez que a gente se beijava, eu fechava os olhos
e via direitinho a fisionomia de papai. Mas direitinho como está ali.
(Indica o falso
quadro de Jesus.)
<FIM DA CENA>