BODAS DE SANGUE
Do autor espanhol Federico Garcia Lorca (1898 - 1936)

Primeira cena de Mãe e Vizinha, no fim do primeiro quadro do Primeiro Ato

Vizinha – Como vai?

MÃE – Assim.

Vizinha – Fui até o armazém e passei para ver você. Vivemos tão longe!

MÃE – Faz vinte anos que não subo até o alto da rua.

Vizinha – Você está bem.

MÃE – Acha?

Vizinha – As coisas passam. Há dois dias torxeram o filho de minha Vizinha com os dois braços cortados pela máquina.

MÃE – Rafael?

Vizinha – É. E lá está ele. Às vezes fico pensando que oseu filho e o meu estão melhor onde estão, dormindo, descansando, e não expostos a ficar inúteis.

MÃE – Fica quieta. Tudo isso são bobagens, não consolam ninguém.

Vizinha – Ai!

MÃE – Ai! (Pausa)

Vizinha – E seu filho?

MÃE – Saiu.

Vizinha – Até que enfim, comprou a vinha!

MÃE – Teve sorte.

Vizinha – Agora vai se casar.

MÃE – (Como que despertando e aproximando sua cadeira da Vizinha)Escute.

Vizinha – Diga.

MÃE – Você conhece a noiva de meu filho?

Vizinha – Boa moça!

MÃE – É mas...

Vizinha – Mas conhecer, mesmo, a fundo... ninguém conhece. Vive sozinha lá com o pai, tão longe, a dez léguas da casa mais próxima. Mas é boa. Acostumada à solidão.

MÃE – E a mãe dela?

Vizinha – Essa eu conheci. Bonita. Tinha uma cara que brilhava como a de um santo; mas nunca me agradou nem um pouco. Não gostava do marido.

MÃE – Mas que gente para saber das coisas.

Vizinha – Perdão. Não queria ofender; mas a verdade é essa. Agora, se foi honesta ou não, ninguém sabe. Nunca se falou nisso. Ela era orgulhosa.

MÃE – Sempre a mesma coisa!

Vizinha – Você é que perguntou.

MÃE – É que eu queria que ninguém conhecesse as duas, nem a viva e nem a morta. Que fossem como dois cactos, de que nintuém fala, e que espetam se for preciso.

Vizinha – Tem razão. Seu filho vale muito.

MÃE – Vale. Por isso é que tomo cuidado. Me disseram que a moça teve um noivo, tempos atrás.

Vizinha – Quando tinha uns quinze anos. Ele se casou já faz dois anos com uma prima dela, por sinal. Ninguém lembra mais do noivado.

MÃE – E como é que você se lembra?

Vizinha – Você me faz cada pergunta!...

MÃE – E quem não se interessa por suas próprias dores? (Pausa) Quem era o noivo?

Vizinha – Leonardo.

MÃE – Que Leonardo?

Vizinha – O Leonardo dos Félix.

MÃE – Dos Félix?

Vizinha – Mulher, que culpa tem Leonardo? De quê? Ele tinha oito anos no tempo das brigas.

MÃE – É verdade... Mas é só ouvir falar em Félix e é como – (entre dentes) Félix! como se me enchessem a boca de lama (cospe) e tenho que cuspir, tenho que cuspir para não matar.

Vizinha – Calma! Que é que você ganha com isso?

MÃE – Nada. Mas você compreende.

Vizinha – Não vá contra a felicidade do seu filho. Não diga nada a ele. Você está velha. Eu também. As duas caladas; assim é que deve ser.

MÃE – Não vou dizer nada. (Beijando-a)

Vizinha – Nada. (Serena)

MÃE – As coisas...

Vizinha – Vou indo, que daqui a pouco a minha gente chega do campo.

MÃE – Já viu que dia mais quente?

Vizinha – Os meninos que levam água para os segadores pareciam pretinhos. Adeus, mulher.

MÃE – Adeus. (Dirigi-se para a porta. No meio do caminho pára e benze-se lentamente)

<FIM DA CENA>