"Escola de Mulheres"
de Moliére
Personagens: Arnolfo e Inês
Arnolfo - Inês! Inês! (entra Inês)
Inês - Chamou?
Arnolfo - Chamei. Cheguei.
Inês - Oh, que prazer. Fiquei tão ansiosa. Cada cavalo, burro ou mula que passava eu pensava que era você chegando.
Arnolfo - Vamos dar um passeio. (passeiam) Um passeio bonito.
Inês - Muito bonito.
Arnolfo - Um lindo dia.
Inês - Lindíssimo.
Arnolfo - E o que é que há de novo?
Inês - O gatinho morreu.
Arnolfo - Coitado! Mas, enfim, somos todos mortais, cada um morre na sua vez. O mundo, cara Inês, que coisa estranha é o mundo! A maledicência geral, por exemplo; uns vizinhos me disseram que um homem jovem penetrou lá em casa em minha ausência e que você não só o viu, como ouviu também, com agrado! Mas é claro que não acreditei nessas línguas viperinas e apostei até na falsidade de...
Inês - Por Deus, não aposte! Era perder, na certa!
Arnolfo - O quê? É verdade que um homem...?
Inês - É certo! É certo! Mais do que isso - quase não saiu aqui da nossa casa o tempo todo.
Arnolfo (baixo, à parte) - Essa confissão, que faz com tal sinceridade, me prova pelo menos a sua ingenuidade. (Alto) Como é que é essa história?
Inês - Eu estava na varanda, costurando ao ar livre, quando vi passar debaixo do arvoredo um rapaz muito bem apessoado que, vendo que eu o via, me fez um cumprimento respeitoso. Eu, não querendo ser menos educada, respondi do meu lado ao cumprimento. Ele, rapidamente, fez outra reverência; eu, também depressa, respondi; ele então se curvou uma terceira vez; e eu , que, é natural, olhava para esse movimento todo, tinha que responder a cada cumprimento. Tanto que, se em certo instante a noite não chegasse, eu teria ficado ali, saudando eternamente. Pois eu não ia ceder e passar pela vergonha dele me julgar menos civilizada.
Arnolfo - Muito bem.
Inês - No dia seguinte, eu estava na porta, uma velha se aproximou e disse assim: "Minha filha, que Deus te abençoe e mantenha tua beleza durante muitos anos; ele não te fez assim tão bela para que você espalhasse o mal por onde passa. Você deve saber que feriu um coração.
Arnolfo (à parte) - Oh, um instrumento de Satã! Alma danada!
Inês - "Eu feri o coração de alguém?" Perguntei espantada. "Feriu!" me respondeu a velha, " e feriu seriamente". "Qual foi a causa?" - disse eu - "Por acaso deixei cair algum vaso em cima dele?" "Não" - me respondeu a velha - "O golpe fatal partiu desses seus olhos."
Arnolfo (a parte) - Tudo foi causado por uma alma inocente; tenho que me acusar de uma ausência imprudente que deixou aqui, sem proteção, esses encantos tentadores, expostos à cupidez dos mais vis sedutores. Temo só que o velhaco, entre lua e luar, haja ido mais longe do que ouso pensar. (a Inês) Me conta agora o que aconteceu depois; como ele se comportou enquanto a visitava.
Inês - Ah, foi muito bonzinho: dizia que me amava um amor sem igual, dizia palavras as mais gentis do mundo, coisas como jamais ouvi ninguém dizer e que me faziam subir um certo não-se-que aqui por dentro.
Arnolfo - (baixo, à parte) Oh, exame funesto de um mistério fatal, onde o examinador sofre só todo o mal. (alto) Além de todas essas conversas, e de toda essa cumprimentação, ele não lh fazia também umas carícias?
Inês - Ah, tantas! Pegava minhas mãos, meus braços, e não cansava nunca de beijá-los.
Arnolfo - E, diz aqui, Inês, ele não quis mais nada? Não foi ... mais... adiante; (vendo-a confusa) Ui!
Inês - Hummm... ele me ...
Arnolfo - O quê?
Inês - ...pediu...
Arnolfo - ...Ahn?
Inês - ...a ...
Arnolfo - Pediu a ...?
Inês - Não tenho coragem; você vai ficar furioso comigo.
Arnolfo - Não fico.
Inês - Eu sei que fica.
Arnolfo - Deus do céu! Não fico!
Inês - Ele me tirou a ... Você vai ficar...
Arnolfo - Não fico, não fico, não fico! ( à parte) Ah, que eu fico! Eu sofro como um louco!
Inês - (gritando) Ele me tirou a fita que você me deu.
Arnolfo - (respirando fundo) Oh, a fita é o de menos. Estou aliviado. Vai, vai e manda aqui os dois criados. (sai Inês)