A GAIVOTA
ANTON TCHEKHOV

Ato III
Cena de Arkádina e Trepliov

Sala de jantar na casa de Sorin. À esquerda e à direita, portas. Armário de medicamentos. No centro da sala, uma mesa. Uma mala, caixas de chapéus, marcas de preparativos para viagem.

TREPLIOV - Mamãe troque as minhas ataduras. Você faz isso tão bem.

ARKÁDINA – (Tira do armário de medicamentos iodofórmio e o material para curativos) O doutor está atrasado.

TREPLIOV – Prometeu estar aqui antes das dez e já é meio-dia.

ARKÁDINA – Sente-se. (Tira as ataduras da cabeça do filho) Isso parece um turbante. Ontem na cozinha um pedinte perguntou qual era a sua nacionalidade. Olhe, já quase cicatrizou. Só resta uma coisica de nada. (Beija a cabeça do filho) . Mas se eu partir, você não vai me aprontar mais nenhuma outra travessura, não é?

TREPLIOV – Não, mamãe. Aquilo foi um momento de louco desespero, quando não soube me dominar. Não voltará a se repetir. (Beija as mãos da mãe.) Você tem mãos de ouro. Lembro-me, há muito tempo, quando você ainda trabalhava no teatro estatal – eu ainda era um menino - , de que houve um grande briga no prédio, a lavadeira, que morava lá também, apanhou muito. Lembra? Ela perdeu os sentidos... E você ia sempre à casa dela, levava-lhe remédios e dava banho nos filhos dela numa tina. Será que você não se lembra?

ARKÁDINA - Não. ( Coloca uma atadura nova na cabeça do filho.)

TREPLIOV – Moravam também duas bailarinas no mesmo prédio... Elas vinham tomar café com você.

ARKÁDINA – Disso eu me lembro.

TREPLIOV – Eram um bocado beatas, as duas. (Pausa) Nos últimos tempos, estes dias agora, amo-a com a ternura e abnegação da minha infância. Não me resta mais ninguém, além de você. Mas... por quê, por que se ssubmete tanto à influência daquele homem?

ARKÁDINA – Você não o compreende, Konstantin. Ele é de uma nobreza invulgar...

TREPLIOV – No entanto, quando disseram a ele que eu pretendia desafiá-lo para um duelo, sua nobreza não o impediu de comportar-se como um covarde. Ele vai-se embora... para sua vergonha, ele vai fugir!...

ARKÁDINA – Que tolice! Fui eu quem lhe pediu para que fôssemos embora daqui.

TREPLIOV – Que nobreza invulgar! Agora mesmo, por pouco não brigamos por causa dele, enquanto ele, em algum lugar no salão ou no jardim, estará rindo de nós... cultivando Nina e se esforçando por convencê-la de que ele, Trigorin, é um gênio.

ARKÁDINA – Você se delicia em dizer-me coisas desagradáveis. Eu respeito esse homem e peço-lhe que na minha presença não fale mal dele.

TREPLIOV – Pois eu não o respeito. Você quer que eu o considere um gênio mas, me perdoe, eu não sei mentir – detesto suas obras.

ARKÁDINA – Isso é pura inveja. Aos homens de pouco talento e de muita pretensão não resta mais nada senão injuriar os verdadeiros talentos. É um triste consolo, sem dúvida!

TREPLIOV – (irônico) Verdadeiros talentos! (Irado) Pois, já que estamos falando nisso, eu tenho mais talento que vocês todos juntos! (Arranca a atadura da cabeça) Vocês, com sua rotina batida, se autoproclamaram os maiorais das artes e só consideram legítimo e verdadeiro o que vocês fazem, oprimem e sufocam todo o resto! Pois eu não os reconheço como tais! Não reconheço nem a você e nem a ele!

ARKÁDINA – Decadente!

TREPLIOV – Então vá a seu querido teatro e represente aquelas míseras peças sem um pingo de talento!

ARKÁDINA – Nunca atuei em tais peças! Deixe-me em paz! Você não é capaz de escrever nem mesmo um mísero vaudeville. Burguesinho de Kiev! Parasita!

TREPLIOV – Avarenta!

ARKÁDINA – Esfarrapado! (Trepliov senta-se e chora em silêncio) Seu joão-ninguém! (Caminha de um lado para outro agitada) Não chore... Não deve chorar... (Chora) Não deve... ( Beija-lhe a testa, as faces, a cabeça) Filho querido, me perdoe!... Perdoe sua mãe pecadora. Perdoe a pobre infeliz que sou!

TREPLIOV – (Abraçando-a) Oh, se você soubesse! Perdi tudo. Ela não me ama e já não consigo nem escrever... minhas esperanças todas se foram...

ARKÁDINA – Não se desespere... Tudo se ajeitará. Ele vai partir logo e Nina vai amar você de novo. (Seca as lágrimas do filho) Basta! Já fizemos as pazes.

TREPLIOV – (beija-lhe as mãos) Sim, mamãe.

ARKÁDINA – (com ternura) Faça as pazes com ele também. Não haverá duelo algum... Não é?

<FIM>