Sala de jantar na casa de Sorin. À esquerda e à direita, portas. Armário de medicamentos. No centro da sala, uma mesa. Uma mala, caixas de chapéus, marcas de preparativos para viagem.
TREPLIOV - Mamãe troque as minhas ataduras. Você
faz isso tão bem.
ARKÁDINA – (Tira do armário de medicamentos iodofórmio
e o material para curativos) O doutor está atrasado.
TREPLIOV – Prometeu estar aqui antes das dez e já é meio-dia.
ARKÁDINA – Sente-se. (Tira as ataduras da cabeça do filho)
Isso parece um turbante. Ontem na cozinha um pedinte perguntou qual era a sua
nacionalidade. Olhe, já quase cicatrizou. Só resta uma coisica
de nada. (Beija a cabeça do filho) . Mas se eu partir, você não
vai me aprontar mais nenhuma outra travessura, não é?
TREPLIOV – Não, mamãe. Aquilo foi um momento de louco desespero,
quando não soube me dominar. Não voltará a se repetir.
(Beija as mãos da mãe.) Você tem mãos de ouro. Lembro-me,
há muito tempo, quando você ainda trabalhava no teatro estatal
– eu ainda era um menino - , de que houve um grande briga no prédio,
a lavadeira, que morava lá também, apanhou muito. Lembra? Ela
perdeu os sentidos... E você ia sempre à casa dela, levava-lhe
remédios e dava banho nos filhos dela numa tina. Será que você
não se lembra?
ARKÁDINA - Não. ( Coloca uma atadura nova na cabeça do
filho.)
TREPLIOV – Moravam também duas bailarinas no mesmo prédio...
Elas vinham tomar café com você.
ARKÁDINA – Disso eu me lembro.
TREPLIOV – Eram um bocado beatas, as duas. (Pausa) Nos últimos
tempos, estes dias agora, amo-a com a ternura e abnegação da minha
infância. Não me resta mais ninguém, além de você.
Mas... por quê, por que se ssubmete tanto à influência daquele
homem?
ARKÁDINA – Você não o compreende, Konstantin. Ele
é de uma nobreza invulgar...
TREPLIOV – No entanto, quando disseram a ele que eu pretendia desafiá-lo
para um duelo, sua nobreza não o impediu de comportar-se como um covarde.
Ele vai-se embora... para sua vergonha, ele vai fugir!...
ARKÁDINA – Que tolice! Fui eu quem lhe pediu para que fôssemos
embora daqui.
TREPLIOV – Que nobreza invulgar! Agora mesmo, por pouco não brigamos
por causa dele, enquanto ele, em algum lugar no salão ou no jardim, estará
rindo de nós... cultivando Nina e se esforçando por convencê-la
de que ele, Trigorin, é um gênio.
ARKÁDINA – Você se delicia em dizer-me coisas
desagradáveis. Eu respeito esse homem e peço-lhe que na minha
presença não fale mal dele.
TREPLIOV – Pois eu não o respeito. Você quer que eu o considere
um gênio mas, me perdoe, eu não sei mentir – detesto suas
obras.
ARKÁDINA – Isso é pura inveja. Aos homens de pouco talento
e de muita pretensão não resta mais nada senão injuriar
os verdadeiros talentos. É um triste consolo, sem dúvida!
TREPLIOV – (irônico) Verdadeiros talentos! (Irado) Pois, já
que estamos falando nisso, eu tenho mais talento que vocês todos juntos!
(Arranca a atadura da cabeça) Vocês, com sua rotina batida, se
autoproclamaram os maiorais das artes e só consideram legítimo
e verdadeiro o que vocês fazem, oprimem e sufocam todo o resto! Pois eu
não os reconheço como tais! Não reconheço nem a
você e nem a ele!
ARKÁDINA – Decadente!
TREPLIOV – Então vá a seu querido teatro e represente aquelas
míseras peças sem um pingo de talento!
ARKÁDINA – Nunca atuei em tais peças! Deixe-me em paz! Você
não é capaz de escrever nem mesmo um mísero vaudeville.
Burguesinho de Kiev! Parasita!
TREPLIOV – Avarenta!
ARKÁDINA – Esfarrapado! (Trepliov senta-se e chora em silêncio)
Seu joão-ninguém! (Caminha de um lado para outro agitada) Não
chore... Não deve chorar... (Chora) Não deve... ( Beija-lhe a
testa, as faces, a cabeça) Filho querido, me perdoe!... Perdoe sua mãe
pecadora. Perdoe a pobre infeliz que sou!
TREPLIOV – (Abraçando-a) Oh, se você soubesse! Perdi tudo.
Ela não me ama e já não consigo nem escrever... minhas
esperanças todas se foram...
ARKÁDINA – Não se desespere... Tudo se ajeitará.
Ele vai partir logo e Nina vai amar você de novo. (Seca as lágrimas
do filho) Basta! Já fizemos as pazes.
TREPLIOV – (beija-lhe as mãos) Sim, mamãe.
ARKÁDINA – (com ternura) Faça as pazes com ele também.
Não haverá duelo algum... Não é?
<FIM>