"O Telescópio"
de Jorge Andrade

Ada - Luís!

Luís (assusta-se; depois sorri.)

Ada - Assustando-se à toa?

Luís - Estava distraído.

Ada - Gosta de ficar só? Vou-me embora. (faz menção de sair)

Luís - Não, não. Fique!

Ada (pausa) - Às vezes, parece não pertencer à família.

Luís - Por quê?

Ada - Não sei. Quase não fica onde estamos, conversa pouco, sempre triste!

Luís - Questão de temperamento.

Ada - (sorri faceira) Só?

Luís - Só. Vocês é que estão sempre alegres.

Ada - Acha nossa casa divertida?

Luís - Acho. Sabem o que querem

Ada - Você, não?

Luís - (sorri) Não sei.

Ada - Acho que o seu mal é solidão!

Luís - Não creio.

Ada - (insinuando) Também acho triste, casa sem crianças.

Luís - Já me acostumei. Nem penso mais. (querendo mudar de assunto) Onde estão os outros?

Ada - Na sala. (ri) Mamãe resolveu desenterrar as fotografias antigas para mostrar a tia Alzira. Demos boas risadas. Se fossem minhas, iam todas para o fogo.

Luís - Ora! Por quê?

Ada - Para que recordar o que já passou?

Luís - Todos nós temos momentos felizes que gostamos de reviver.

(Pausa. O assunto parece ter acabado; não sabem o que dizer. Um sente a presença do outro)

Ada - (arrumando os cabelos) Ficou aborrecido com o que aconteceu à mesa?

Luís - (seco) Não.

Ada - (falsa indignação) A Leila não devia ter falado naquilo.

Luís - Não tem importância.

Ada - (subitamente) Que é isso em seu rosto?

Luís - O quê?

Ada - Está sujo.

(Ada aproxima-se, põe uma das mãos na nuca de Luís e limpa seu rosto com um lenço)

Luís - Deve ser graxa. (afasta-se incomodado) Fui ver a turbina.

Ada - Espere! Não limpei ainda. Está com medo de mim?!

Luís - Naturalmente que não.

(Ada olha para Luís, examinando-o)

Ada - Fica bem de botas. Devia usar sempre.

Luís - Acha?

Ada - Parece mesmo um fazendeiro.

Luís - É um elogio?

Ada - Para mim é. O maior.

Luís - Obrigado.

Ada - (pausa. Subitamente) Acha que sou sem vaidade?

Luís - Não.

Ada - Feia?

Luís - Pelo contrário.

Ada - Mesmo assim, despenteada, sem pintura?

Luís - Mesmo assim.

Ada - (faceira) Pensei que gostasse de mulher muito pintada.

Luís - Que importância tem o que penso a respeito?

Ada - Muita. Acho que... Sai daí! As abelhas picam você!

Luís - (pausa. Olha o caixão de abelhas.) Seu pai é uma pessoa diferente. Parece ter ciúmes de tudo. (passa a mão na tábua pendurada com um certo carinho) Não gosta que matem os passarinhos, que peguem os peixes; gosta de olhar as estrelas e protege as abelhas e marimbondos.

Ada - Fazem parte da fazenda.

Luís - Somente neste alpendre, contei seis caixas de marimbondo!

Ada - Abelha, marimbondo... dentro de casa, traz sorte. Dinheiro!

Luís - É?! Então, vou levar algumas abelhas comigo.

Ada - Mas cuidado! Gostam de enrolar no cabelo da gente.

Luís - (sorri) Não tem importância. Contanto que tragam dinheiro.

(Ada olha, de repente para o caixão de abelhas; parece tomar uma decisão. Depois examina as caixas de marimbondo no forro do alpendre, vergando o corpo, provocante. Luís examina Ada. Pausa)

Luís - Que está lendo?

Ada - (esconde o livro) Nada. Passa-tempo.

Luís - Como chama?

Ada - O interrogatório agora é seu?

Luís - (sorri) Desculpe-me.

Ada - Andou pela fazenda hoje?

Luís - Andei.

Ada - Onde foi?

Luís - Gosto de ver o ria nas matas da "Vista Alegre". Fui lá.

Ada - É a melhor terra da fazenda. Mata virgem. Sabia?

Luís - Todos dizem a mesma coisa. Eu não saberia distinguir.

Ada - Lá, tudo nasce - basta jogar na terra.

Luís - Não sei se é boa; sei que o lugar é muito bonito.

Ada - É onde pretendo fazer minha casa.

Luís - (subitamente) A quem acha que deveriam pertencer?

Ada - (rígida) O que?

Luís - As terra da "Vista Alegre".

Ada - Àqueles que terão a quem deixar. (espera a reação de Luís) Quem não tem filhos não precisa de terras.

Luís - (pequena pausa) Penso como você. É o que gostaria que a Leila compreendesse.

Ada - O quê?

Luís - Prefiro receber minha parte em dinheiro. Não sou fazendeiro.

Ada - (insinua) Não sou igual a Leila. Nisto não.

Luís - No quê?

Ada - Em nossa família, as mulheres gostam de ter muitos filhos.

Luís - (ligeiramente triste) Isto nem sempre depende de nós.

Ada - Mulher é como terra: só precisa de trato e chuva.

Luís - (ri) Você é criança para saber.

Ada - Não sou tão criança assim. Na minha idade, minha avó tinha cinco filhos, era viúva e cuidava sozinha da fazenda

Luís - (examina Ada) Você vai se casar...

Ada - (continuando) Com um primo e ter oito filhos. Todos homens!

Luís - (ri) Como é que pode saber?

Ada - (categórica) Eu sei. Eu quero. Não tenho vaidade.

Luís - Que é que a vaidade tem com isso?

Ada - (pequena pausa) Não me incomodo de ser elegante. Há mulheres que não têm filhos só para não estragarem o corpo. Não sabia disto?

Luís - (compreende a insinuação; vira-se para sair) Onde está a Leila...?

Ada - Ai! (leva a mão à cabeça)

Luís - Que foi? Que foi, Ada?

Ada - Não sei. Acho que uma abelha...

Luís - Picou você?

Ada - (impaciente) Não. Ajude-me! Não fique aí, olhando.

(Luís hesita, sem saber o que fazer)

Ada - (com o cabelo todo desmanchado) Veja para mim, Luís.

Luís - Não. Não há nada.

Ada - Estou sentindo. Por favor, procure!

(Ada chega-se mais perto de Luís - estão praticamente abraçados. De repente, Ada levanta a cabeça: olham-se durante um momento e lentamente se beijam. Ada entrega-se. Dão vazão a um desejo intenso. Durante esta cena, Rita aparece na sala, vindo do corredor, olha seus moveis e entra na cozinha.)

Ada - (enquanto é beijada) Não vá embora. Fique aqui!

Luís - Ada!

Ada - Você vive tão só quanto eu!

Luís - (excitado) Não podemos! Não podemos, Ada! (continua beijando-a)

Ada - Podemos tudo, se desejarmos. Diga que me que. Diga!

Luís - Vamos sair daqui!

Ada - Diga que me quer! Darei a você o filho que tanto desejou e que ela não deu. Não deu por vaidade!

Luís - (beijando-a novamente) Quero! Quero-a muito! Venha! (segura a mão de Ada e encaminha-se para a escada. De repente, Ada solta-se)

Ada - Não!

Luís - Que foi?

Ada - Você é casado. Não me pertence.

Luís - Não pensou nisso antes.

Ada - Não gosta de mim; acha-me feia, sem vaidade!

Luís - Por isso mesmo é bonita. (aproxima-se)

Ada - Não me ponha a mão! Chega!

(Leila aparece na sala, vindo do corredor...)