Os
Sete Gatinhos
de Nelson Rodrigues
(Aurora conhecera Bibelot na véspera, combinaram um encontro para o hoje. Aurora saiu da autarquia onde trabalhava às cinco em ponto. Encontra-se com Bibelot na esquina combinada)
BIBELOT - (baixo e caricioso) - Linda!
AURORA - Acha?
BIBELOT - Você fica um estouro de azul!
AURORA - (numa alegre mesura) - Merci!
BIBELOT - Qual é o programa?
AURORA - Fila de ônibus!
BIBELOT - Queres um palpite?
AURORA - Qual?
BIBELOT - É o seguinte: em vez de ônibus ou lotação, podia-se ir de bonde.
AURORA - (tentada) - De bonde?
BIBELOT - Assim a gente ia sentada, batia-se um papinho e outros bichos!
AURORA - (com frêmito delicioso) - Topo!
BIBELOT - (alegre) - Então vamos embora!
AURORA - Antes que eu me esqueça, uma coisa que eu estou para te perguntar, desde ontem; por que o pessoal te chama de Bibelot?
BIBELOT - (achando graça) Bem é porque...
AURORA - (sem saber explicar) - Acho um apelido tão não sei como!
(Bibelot vacila. Pigarreia. Ri)
BIBELOT - Me chamam de Bibelot pelo seguinte: tem uns caras que acham que eu dou sorte com mulher.
AURORA - (deleitada) - Goso do teu cinismo!
(Os dois andam alguns passos. Bibelot estaca.)
BIBELOT - Espera!
AURORA - Que é?
BIBELOT - Botei outra idéia!
AURORA - Olha a hora!
BIBELOT - É cedo.
AURORA - Diz.
BIBELOT - Primeiro responde: você é corajosa?
AURORA - Que espécie de coragem?
BIBELOT - (tirando um pigarro) - Coragem para ir a um lugar, assim, assim...
AURORA - (rápida) - Tira a mão!
BIBELOT - Vai?
AURORA - Onde?
BIBELOT - Lá.
AURORA - Depende.
BIBELOT - Ia ser bacana!
AURORA - Onde é?
BIBELOT - Copacabana.
AURORA - (com pânico da distância) - Longe!
BIBELOT - De táxi é um pulo. E olha: tem vitrola, p0nho uns discos e ouve-se música.
AURORA - (com doce ironia) - Só?
BIBELOT - (um pouco incerto) - Te dou uns beijinhos e pronto.
AURORA - Só beijinhos e nada mais?
BIBELOT - Lógico!
AURORA - (suspirando) - Vocês homens!
BIBELOT - (sôfrego) - Te juro! O apartamento não é meu, é de um amigo, que está fora. Ele me deu a chave e, além da chave, tem ferrolho, a gente fecha por dentro, não há o menor perigo sua boba! E o edifício é residencial, discretíssimo!
AURORA - (doce e triste) - Que idéia você faz de mim?
(Bibelot atrapalha-se)
BIBELOT - Idéia como?(incisivo) A melhor possível ora!
AURORA - (incisiva também) - Mentira! Você me viu ontem pela primeira vez, numa fila de ônibus. Eu nem te conheço. Te conheço? Fala!
(...)
AURORA - (muda de tom) Você tem dinheiro?
BIBELOT - Como dinheiro?
AURORA - Tem?
BIBELOT - Algum.
AURORA - Quanto mais ou menos?
BIBELOT - (sem entender) - Mas finalmente qual é o drama?
AURORA - (feliz) - Não há drama. Eu sou assim, de ventea, percebeu? Quando cismo com um camarada, já sabe: topo qualquer parada. E tarei, não sei se por você, se pelo teu terno
branco, sei lá. Resolvi ir ao apartamento contigo e pronto!
BIBELOT - O diabo é encontrar taxi a essa hora!
AURORA - Mas uns quinhentos cruzeiros você tem, não tem?
( Bibelot estaca. Vira-se para a pequena. Está na maior confusão)
BIBELOT - Quinhentos cruzeiros?
AURORA - Meu filho, eu costumo cobrar mil e quinhentos, dois mil e até três mil cruzeiros. Pago só pelo quarto quinhentos, mas como você arranja o apartamento, (pausa) dá só os quinhentos, está bem?
BIBELOT - Vem cá: olha pra mim.
AURORA - Pronto.
BIBELOT - Diz: você quer tomar dinheiro de mim?
AURORA - (sôfrega) - Quinhentos e pode chamar o taxi!
BIBELOT - (estrebucha) - Está de porre?
AURORA - (desesperada de desejo) - Menos não posso!
BIBELOT - Nem um tostão.
AURORA - (quase chorando) - Escuta, gostei de ti e te digo mais: um terno branco, fresquinho de tinturaria, me põe maluca, doida! Mas eu preciso dos quinhentos cruzeiros. Preciso, ouviu? (suplicante) Tenho despesas fixas e prometi a mamãe. Palavra de honra: o dinheiro não é para mim!
BIBELOT - Minha filha, nunca dei um vintém a mulher nenhuma! Nem dou!