TIO VÂNIA
de Anton Tchecov
ASTROV - (...) A luta do povo pela sobrevivência - luta que supera suas forças - foi que causou a decadência, e mais a indolência, a ignorância, a falta absoluta de consciência: o camponês trêmulo, faminto e doente, para salvar os destroços de sua vida, para proteger seus filhos, instintivamente, inconscientemente, se agarra a tudo com que pode acalmar a fome e esquentar, e pouco se incomoda com o amanhã, destrói tudo... Já quase tudo está destruído e nada foi construído em seu lugar. (Com frieza) Mas vejo pela sua expressão que isso não interessa.
IELENA ANDRÉIEVNA - É que entendo tão pouco disso...
ASTROV - Não há o que entender nisso, simplesmente não lhe interessa.
IELENA ANDRÉIEVNA - Para ser franca, minha cabeça está ocupada com outra coisa. Desculpe. Agora vou submetê-lo a um pequeno interrogatório, mas estou confusa, não sei como começar.
ASTROV - Um interrogatório?
IELENA ANDRÉIEVNA - Sim, um interrogatório, mas... bastante inocente. Não quer sentar? (sentam-se) Trata-se de uma jovem. Vamos falar sem rodeios, como pessoas decentes, como bons amigos. Falamos e depois esquecemos qual foi o assunto da converda. Está bem?
ASTROV - De acordo.
IELENA ANDRÉIEVNA - Trata-se de Sonia, minha enteada. Gosta dela?
ASTROV - Sim. Tenho por ela respeito e estima.
IELENA ANDRÉIEVNA - Mas gosta dela como mulher?
ASTROV - (após uma pequena pausa) Não.
IELENA ANDRÉIEVNA - Mais algumas palavras e terminou. Não notou nada?
ASTROV - Não. Nada.
IELENA ANDRÉIEVNA - (segurando-lhe a mão) Leio em seus olhos que não a ama ... Sonia sofre ... Compreenda isso e ... não venha mais aqui.
ASTROV - (levanta-se) Já passei da idade... Além do mais, não me sobra tempo ... (encolhe os ombros) Quando me sobraria tempo? (está embaraçado)
IELENA ANDRÉIEVNA - Ah, que conversa mais desagradável! Estou tremendo como se tivesse acabado de carregar nas costas cem toneladas. Bem, graças a Deus, terminamos. Vamos esquece-lo, é como se nunca tivessemos falado e ... vá embora. O senhor é um homem inteligente, vai compreender... (pausa) Fiquei até ruborizada.
ASTROV - Alguns meses atrás talvez eu pensasse no assunto, mas agora... (encolhe os ombros) Se ela sofre, eu, naturalmente... Só não entendo uma coisa: que necessidade tinha a senhora desse interrogatório? (olha-a nos olhos e a ameaça com o dedo) Sua esperta!
IELENA ANDRÉIEVNA - O que quer dizer com isso?
ASTROV - Esperta! Vamos supor que Sonia esteja de fato sofrendo, posso até acreditar nisso, mas que necessidade tinha desse interrogatório? (não a deixa falar, com vivacidade) Perdoe-me; não faça essa cara de surpresa, pois sabe muito bem o que me traz aqui todos os dias... Sabe muito bem por que razão e por quem tenho vindo. Não me olhe assim, minha querida ferazinha, eu sou uma velha rapoza...
IELENA ANDRÉIEVNA - (perplexa) Eu, ferazinha? Não compreendo.
ASTROV - Uma ferazinha bonita e de pele sedoza... A senhora precisa de vítimas! Há um mês que não faço nada, deixei tudo de lado, fico apenas a cobiçá-la - e isso lhe agrada terrivelmente, terrivelmente mesmo!... Pois bem... a senhora venceu, e sabia disso, sem nenhum interrogatório. (cruza os braços e inclina a cabeça) Rendo-me. Tome, pode me devorar.
IELENA ANDRÉIEVNA - O senhor enlouqueceu!
ASTROV - (rindo entre os dentes) Sua covarde...
IELENA ANDRÉIEVNA - Oh, sou melhor e mais nobre do que o senhor, imagina! Eu juro! (quer ir embora)
ASTROV - (impedindo-lhe
a passagem) Vou me embora hoje e não volto mais, porém...
(segura-a pelo braço e olha ao redor) Onde nos veremos? Diga-me, rápido:
onde? Pode entrar alguém, diga rápido. (com paixão) Que
mulher maravilhosa, que mulher magnífica... Um beijo... Deixe que eu
beije estes cabelos perfumados...
IELENA ANDRÉIEVNA - Eu juro...
ASTROV - (não a deixa falar) Para que fazer juramentos? Não precisa jurar nada! Não precisamos de palavras supérfluas... Oh, como é bela! Que mãos! (beija-lhe as duas mãos)
IELENA ANDRÉIEVNA - Pare com isso, já!... Vá embora!... (retira as mãos) O senhor está descontrolado.
ASTROV - Então me diga, me diga, onde é que nos veremos amanhã. (abraça-lhe a cintura) Compreenda, isso é inevitável, você e eu temos de nos encontrar. (beija-a; nesse momento entra Voinitskii com o ramo de rosas e se detém junto à porta)
IELENA ANDRÉIEVNA - (não vê Voinitskii) Não judie de mim... deixe-me. (inclina a cabeça sobre o peito de Astrov) Não! (quer ir embora)
ASTROV - (abraçando-lhe a cintura) Venha amanhã à casa da floresta... às duas horas... Sim? Sim? Você vem?
IELENA ANDRÉIEVNA - (percebe Voinitskii) Solte-me! (muito perturbada, vai até a janela) Isso é terrível!
Entra Voinitskii